segunda-feira, 13 de abril de 2009

Filha de peixe

Stella se levantou pela manhã e logo viu os cabelos loiros e o rosto pintado que a encarava do outro lado do quarto. O quadro original de Andy Warhol fora um presente de seu pai e tinha servido de inspiração para sua última coleção, que refletia a seriedade e a melancolia pouco aparente de Marylin Monroe através de tonalidades neutras, o cinza e o preto. Era dia 9 de março, e enquanto Stella via o trem passar pela janela, ensaiou alguns passos do iê-iê-iê e se preparou para uma Hard Day's Night: o lançamento de inverno.

Concurso Cultural Marie Rucki
Miniconto relacionando um estilista, um artista contemporâneo e um filme em até 80 palavras ou 500 caracteres.


Selecionada! Dia 14: O cinema como parte integrante do sistema da moda. ^^

domingo, 8 de março de 2009

Renaissance

Resolvi cumprir minha palavra e deixei seu quarto. Ele ainda dormia enquanto eu me vestia, mas seus olhos me perseguiram durante os passos finais. As flores continuaram sobre a cama, mas eu carreguei seu gosto e toques em meu corpo.

Assim que embarquei no trem, ainda perdida quanto ao rumo de minha vida, ouvi o toque do celular:

- você sempre soube fazer saídas triunfais.
- mas continuo preferindo as entradas, são mais alegres.
- te devolvo seu sorriso, se quiser.
- você sabe o que tem a fazer, não quero atrapalhar.
- te encontrarei no final.

Sabia que no final nossos passos se encarregariam de cruzar os caminhos. Mas os sentimentos me traíram antes disso, e me vi perdida em Amsterdã graças as nossas palavras. Não haviam Mostardas, mas as tulipas continuavam me encantando. Entre rostos desconhecidos, só lembrei dele.

Kattengat 1, Amsterdam, 1012 SZ – Netherlands. Não demore, mon amour.

O quarto do hotel pedia sua presença, assim como minha mente suspirava seu nome atordoando meus pensamentos. A música, o banho, e o vento fresco que vinha da direção de Koepelkerk. Lá em baixo vi seu carro se aproximar e, assim que desceu, nossos olhares se cruzaram. Ele viera. A visão foi saciada, mas minhas mãos buscavam o abraço de alguns metros. A espera aumentou a tensão e as batidas incertas do coração. Em segundos estava em seus braços, respirava seu ar e descansava a cabeça com pedidos atendidos em seu peito.

- isso não deveria estar acontecendo.
- já desperdiçamos palavras demais.

O beijo. As mãos. Os toques. Os suspiros e gemidos. Continuava me sentindo protegida ao seu lado e, naquela noite, a insônia abandonou meus sonhos. Sua voz descrevia a viagem dos dias passados enquanto as mãos traçavam rotas em meu corpo, caminhos que iam da cabeça aos pés, cruzando fronteiras e buscando horizontes.

- porque você veio?
- você me salvou da última vez, quis retribuir o presente.
- eu nunca planejei te salvar, você sempre foi minha última opção.
- última e única.
- primeira.

Por mais que tentasse esconder, minha presença me denunciava. Ele sempre soube que fugi de quem tentava me fazer feliz. Os outros eram capazes de me entreter, mas eu nunca me contentei com simpatia e sorrisos falsos. Com ele, abandonava meu bom-senso e, se pudesse, não o deixaria. Mas os momentos juntos passam rápido e a partida me leva o boa noite. A minha boa noite.

- para onde vai agora?
- estou pensando em Praga, ou Budapeste. - Fique, e talvez eu fique também. Um sussurro.
- igrejas? santos? religião?
- ciganos. Verei minha sorte e meu destino em cartas.
- dos teus futuros caminhos ninguém nunca saberá, mas tua sorte eu te mostro – Me beijou, como só ele sabe. Odeio sua presunção, adoro seu beijo.

Antes de partir, sinto suas mãos me guiarem até a sacada. Amsterdã não brilha tanto quanto Paris, mas todas as estrelas estão devidamente em seus lugares. Pude enxergá-las, inclusive, em seus olhos, quando envolveu minha cintura e sussurrou em meu ouvido:

- eu fico. Por você, eu fico.

Eu sabia que em alguns dias ele partiria, mas, nesses poucos segundos, ele me fez feliz. E não desejei fugir. Dançamos a noite inteira.


12/03/2008

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Às vezes eu bato os calcanhares na esperança de ir parar em outro lugar.

quem sabe minhas sapatilhas se tornaram mágicas ao longo do dia

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Anatomia

Eu fiz de tudo, te mostrei tudo o que tinha e aonde queria chegar, junto com você. Meu erro foi me entregar tanto e achar que você retribuiria minha exposição. Não vi esperança no futuro, não vi linhas que segurassem nossa relação e me aproximassem de você. Você nunca as puxou ao seu encontro. E a liberdade me deixava fraca. As esperanças se esvaziavam e a luz no fundo já parecia uma simples chama prestes a apagar. No entanto, eu percebia o quanto eu era melhor dessa maneira. Independente de erros, defeitos e controvérsias. Eu poderia simplesmente descartar tudo e ser eu, somente eu. Eu com você. Porque só assim eu já era boa. Com você, com sua presença, seu suporte, sua incrível capacidade de me deixar em paz. No melhor dos sentidos, em paz comigo mesma e com o que me cerca. Eu superaria a confusão. Te pediria mais tranqüilidade e seus abraços. Te pediria conversas e seu tempo. Eu não precisava de você, eu precisava de nós. “Só porque nós podemos ser extraordinários juntos a medíocres separados.”

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Agi como se não me importasse e desejei observar o que já acabara. Era difícil me entregar a tal experiência e relembrar sensações tão tristes. De qualquer modo, preferia tentar te entender a continuar no irreparável marasmo em que me encontrava. Sabia que seria doloroso voltar após me entregar às suas ilusões, mas meu objetivo não era mais o mesmo. Desta ultima vez, eu só queria observar e entender. Bastava usar toda a coragem que eu nunca tive, já era hora de encará-la.

Da minha vida

Em alguns segundo meu olhar paralisou e fixou-se em um ponto cego. Tudo era escuro. Meus olhos estavam fechados. Chamei pelo seu nome e o ouvi ecoar em meus ouvidos. Não havia ninguém ali. Aos poucos senti alguém se aproximar. Assim como o cheiro de chuva que chega para anunciá-la, senti seus movimentos antes que você de fato aparecesse. Tudo se clareava aos poucos, o entardecer dava um tom alaranjado a sua pele. Percebi as cicatrizes no seu peito. Eu imaginei que estaria desse jeito. Os sinais de cansaço, as marcas pelo corpo. O que tinham feito com você? O que eu fui fazer?

Eu era a culpada. Perdi a razão e te deixei vulnerável, te arrisquei. Você nunca foi forte para ser pedra, nem leve para fazer-te aconchegante. Era vidro. Parecia bonito por fora, brilhava e refletia. Mas era tão delicado. Tão delicado. Eu sorria apesar da mágoa, só pensava em te fazer feliz e ter o sorriso retribuído. E então chorava pelo mais fraco dos motivos, já cansada de tanto fingir.

Caminhei ao meu encontro e pensei nas possibilidades. Curaria as cicatrizes, trancaria o peito, apagaria as marcas. Pontuaria o sofrimento para que pudesse retornar a mim. Desapareceria com os vestígios e, mesmo assim, sabia que ainda seria impossível tocar a alma, que já havia deixado os restos.

Não havia solução. Enquanto eu aceitava os fatos e as últimas lágrimas corriam pelo meu rosto diante do inalterável, senti a luz se apagar. No escuro era difícil encontrar o caminho de volta. Em meu desespero, pedi silenciosamente para que me devolvessem a luz. Talvez o problema tenha sido este. Na falta de voz, nem eu mesma me ouvi.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Eu me lembro de quando você costumava acordar sem me fazer perceber e tudo o que eu via era sua sombra desaparecendo do meu lado. Minutos depois eu sentia o perfume do chá, o meu preferido, que você preparava pelas manhãs. Erva-doce será sempre o seu perfume.

Os beijos e toques completavam as sensações e por um segundo eu me perdia e mesclava a realidade com os tons do sonho anterior. Fechava os olhos, ouvia o vento lá fora, sentia sua respiração tão próxima e desejava que aqueles minutos pudessem durar horas.

Ao longo do dia, o acelerar de minhas ações fazia os pensamentos flutuarem em câmara lenta pela minha imaginação. Ficavam ali vagando, prontos para serem repescados e introduzidos no plano das próximas horas. Ouvia sua voz, lia suas letras. Esperava pelo som de seus passos vindo do corredor. Então a noite chegava, com seu suor em meu corpo enquanto eu te abraçava. E o perfume de erva-doce ainda era a lembrança de uma manhã passada.

"Você foi mais poesia do que eu sou capaz de fazer."

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

how about?

E então foi assim: tudo começou, tudo se fez, se contruiu e continuou. Foi simples, teve suas inseguranças e medos, suas alegrias e tristezas, atos falhos, mentiras, carinho, e continua a ser. Mas por pensar em poder dizer demais, caiu em sua armadilha. Pensar. E todo o tempo não foi suficiente para deixá-la livre. Livre de si mesmo e das amarras. Continua acreditando que se o muro existir ela estará protegida. Talvez seja uma idéia boba se trancafiar e esconder as chaves, talvez seja só uma forma de não abrir o livro e deixar que fucem em suas páginas. O medo ainda existe, mas está pensando em deixá-la tentar.