quinta-feira, 5 de junho de 2008

epílogo reeditado: farsa

Porque depois que você se foi, só restou o frio. Que adentrou o corpo e cristalizou o coração. Como pedra, já não mais sentia. Só o êxtase que você me causou foi capaz de reavivar o batimento. Então, tudo se tornou mais claro. Não foi simples aceitar o fato de que não deveríamos ser, um. Passei noites mal dormidas pensando em você. Em todas as vezes que te encontraria na cama, naquele momento único de olhos nos olhos. Eu relembraria e reviveria cada toque seu, como se pudesse sentir o mesmo prazer que já me trouxeram um dia. A irrealidade nunca foi tão verdadeira. O inexistente nunca mexeu tanto comigo.

Quando a claridade chegasse, seria, novamente, só eu. Do mesmo modo de sempre, com os sonhos ousando me desacreditar. Você não apareceria, e eu voltaria a crer que a vida era só isso. Eu preferia desse jeito, pois já não sabia como te olhar, como te encarar e não lembrar da minha mentira, dos seus toques, não me lembrar de tudo o que tínhamos vivido, e que agora nada mais existia, nunca existiu. Eu me fazia iludir e me decepcionava quando percebia que o sonhar era falso. Eu me enganava vivendo o que nunca aconteceria e, ainda assim, me decepcionava com o não-acontecer.

domingo, 18 de maio de 2008

fingidor

(A fez entender que cumplicidade pode vir além da amizade, que atenção e carinho podem não dar nojo e que contato demasiado as vezes se faz necessário.

Seu corpo pedia os toques e lábios. O abraço a preenchia e os olhos fechavam instintivamente, buscando sentir melhor. O planejar das horas se tornava incoerente e os minutos corriam e competiam com a vontade de reaver o tédio ao seu lado.

No entanto...

... deixou cicatrizes no caminho que fugiu da retiliniedade, desfez certezas, abalou a confiança. Enganou-se pensando que a confusão lhe pertencia: ela compartilhou do mesmo mal. Os estilhaços incomodaram e, a ela, que não é poeta, nem sabe fingir, só restou a dor.)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

p&b

No céu vi o reflexo da dor que me atordoava o peito. O dia amanheceu nublado, com nuvens cinzas e previsão de chuva. A mesma escuridão que havia dominado minha noite ao te ver sair. A mesma água que se fez cair, quando as primeiras lágrimas chegaram aos meus olhos.

Passei a manhã remoendo as lembranças anteriores. A briga, os gritos, o amor, a partida. Só então percebi a tristeza do anoitecer sem você, da cama sem seus toques, dos suspiros sem sua voz. A tarde me enganou, pensei ter vivido um dia noturno.

Hoje o sol se escondeu de mim. Você levou a luz junto com minha sanidade. Rodeada pela noite, esperei-a chegar. Como se ao abrir a porta do apartamento apagado, pudesse enxergar o brilho do seu olhar. E tudo voltasse a ser como antes, claro.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

não eu.

Meu querido, saiba que as palavras se enroscam em meu pensamento, me engasgam e bloqueiam a mente, que meu silêncio é carapuça, esconderijo dos sentimentos que tanto prezo e recuso entregar.

Saiba que a proteção me enfraquece, mas falta coragem para usar a voz. São frases inteiras, textos prontos, tudo prestes a ser cuspido, pois já não suporto mais o gosto amargo de palavras tão doces. Foi assim que as planejei, doces, e em certo momento elas se perderem em meu calar, se recuaram em minha cabeça, escolhendo atormentar o presente com lembranças de cenas inexistentes.

Aguarde, meu querido. O tempo há de vir, as palavras chegarão. Me livrarei da covardia e te entregarei o que é teu por direito, as farei mais belas que nunca. Meus sentimentos, minhas palavras, minha inspiração, meu você.

ass.: ela,

quinta-feira, 17 de abril de 2008

hold me

e ela fez do dia noite e estendeu a madrugada até às 9h. acordou ainda cansada, os sonhos lhe haviam tirado a paz do sono, e ainda cansada abriu os olhos. o braço lentamente o envolveu, e ao seu toque ele se revirou, parou com os olhos fixados aos dela e assim, cansado, um meio sorriso surgiu.

os lençóis eram cúmplices do anoitecer, do passar dos minutos entre beijos e vozes. as falas entrecortadas por gemidos enquanto os pés se enlaçam procurando a proximidade das bocas.

o sol apareceu trazendo as obrigações do dia, que deixariam de ocupar os pensamentos ao procurar refúgio na memória. e então o passar seria mais alegre. e o tempo se arrastaria pelas curvas dos toques que se permitia relembrar enquanto não pudesse estar novamente em seus braços.

terça-feira, 15 de abril de 2008

entrementes

e ao som da sua música meu corpo estremece, como se você sussurrasse no meu ouvido, suspirando em meu pescoço enquanto escuto sua voz invadir minha cabeça, tomar o lugar dos pensamentos antes importantes, porque agora só você importa, só você faz circular as tarefas em minha mente, e ocupa o segundo plano enquanto se esconde e fica ali de canto observando tudo, você nunca sai de lá, digo, daqui, da minha cabeça.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

empty

Por culpa da estupidez de minha mente, te deixei ali esquecido, aguardando o momento exato para reaparecer e assombrar meu presente. Cai no jogo da memória e, quando menos esperava, fui trapaceada com a ilusão do seu desaparecimento momentâneo. Infelizmente sua presença voltou a atormentar meu espírito e o antigo amor foi reacendido pelas fagulhas do ciúmes.

Ver suas mãos em outra cintura e seus lábios de encontro a outra face rompia minha lucidez, a cena parecia focar nos seus gestos e me fazer de telespectadora da cena cruel em que meu peito explodia e levavam meu coração ainda sangrando embora. Do raptor eu desconhecia o nome e a identidade, que já não me eram tão importantes, tendo ele salvo uma vida, minha vida, do sofrimento persistente.

Perdi ali a lucidez, o coração e a dignidade. E por não me ser possível enxergar a vida sem paz e amor, deixei-a ali também. Entregue a quem ousasse desejá-la, pois de mim sentimento algum surgiria: a indiferença tomou meus dias.